Em 2003, com projeto e curadoria de Audálio Dantas, foi montada no Sesc Pompéia, em São Paulo, a maior exposição já realizada sobre a vida e a obra de Graciliano. Reuniu documentos e imagens dos acervos do IEB – Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo e do Museu Casa de Graciliano Ramos, de Palmeira dos Índios, acervos que pertenceram a Heloísa Ramos.
O título da exposição, e agora deste livro, sintetiza o espaço e o tempo de Graciliano em sua terra. Há documentos importantes, como as anotações que o escritor fez em sua viagem à antiga União Soviética e à Checoslováquia, no início dos anos 50, juntam-se imagens antigas e recentes, como as que haviam sido colhidas no verão de 2002, por Tiago Santana, um jovem caçador de luz já experimentado nos caminhos do sertão.
Cearense do Crato, Tiago testemunhou, desde menino, a passagem das grandes levas de romeiros que vinham do Nordeste inteiro buscar milagres em Juazeiro, onde vivera por longos anos o padre Cícero, feito santo pelo povo. Um dia, munido de sua câmera fotográfica, o menino fez-se romeiro também, percorreu com eles os muitos caminhos que levam a Juazeiro, e ao longo deles compôs, em luz cortante e sombras profundas, não um documentário sobre as romarias, mas quadros preciosos da religiosidade sertaneja.
Essas imagens seriam reunidas num belo livro de arte, em 2001, sob o título de Benditos, lançado no mesmo ano, simultaneamente com uma exposição, no Sesc Pompéia. O ensaio fotográfico remetia a um dos ciclos mais ricos do cordel – o da religiosidade do povo do sertão e a figura de seu padroeiro, o padre Cícero Romão Batista.
Deu-se, aí, o encontro de Tiago Santana com Audálio Dantas. A exposição das fotos enriquecia outra, 100 anos de cordel, concebida por Audálio, que contava a história da literatura popular em versos a partir das primeiras impressões e comercialização dos livrinhos de cordel do Brasil, no final do século XIX e início do século XX.
O mesmo aconteceria com o ensaio feito para a exposição sobre Graciliano Ramos, agora acrescido de novas imagens reunidas neste livro. O chão percorrido pelo fotógrafo é o mesmo sobre o qual Graciliano construiu a sua literatura, mas não é a paisagem, quase sempre dura e seca, que Tiago recolhe em sua câmera; o que ele registra é o homem que nela vive, sobrevive ou dela se retira quando de todo perde a esperança – eterno Fabiano.
Como Graciliano, o fotógrafo testemunha sobre o homem. A paisagem é mero pano de fundo. Vale repetir aqui o que escreveu Antonio Candido sobre a criação literária de Graciliano Ramos: “…no âmago de sua arte, há um desejo intenso de testemunhar sobre o homem, e tanto os personagens criados quanto, em seguida, ele próprio são projeções deste impulso fundamental, que constitui a unidade profunda de seus livros”.